terça-feira, 4 de janeiro de 2011

sem título

Corro o risco de ser repetitivo na temática - para os que tiverem a sensibilidade e o 'olho treinado' para perceber os padrões nos textos - mas, sinceramente, esse clima de férias me deixa com um certo aval de responsabilidade temática e formal - na verdade uma forma forçosamente erudita de dizer que eu tô cagando e andando pra o que forem pensar, eu tô de férias!

De ontem pra hoje uma idéia foi criando corpo..ela já existia, era grande e crescente. Mas ainda tinha aquele caráter amorfo das idéias em que o emocional e o racional acabam por acasalar e criar, assim, um rebento aparentemente indecifrável e assustador.

Pois bem, o pensamento, pra variar, é simples, talvez óbvio e clichê, como é típico dos nossos pensamentos [e que nós insistimos em achá-los originais na busca por sua legitimação - e na consequente busca pela nossa própria legitimação como indivíduos]. O que tanto nos atrai no que nos é destrutivo? Por que é tão dificil se desapegar das coisas - principalmente essas de efeito entorpecente - e deixá-las ir [essa expressão em português parece meio estranha, mas é o equivalente à idéia de 'let go' do inglês....não consegui econtrar uma tradução não literal que fosse fiel á idéia contida na expressão, então vai a tradução direta mesmo. Como eu disse, eu tô de férias, não me irrita..]?

Eu não estou falando de alcoolismo, vício em drogas ilícitas ou sadomasoquismo. Eu me refiro principalmente ao apego - que temos a mania irritante de sustentar - sobre as relações que, no fim das contas, acabam nos fazendo mais mal do que bem [apesar da própria idéia desse balanço de vantagens e prejuízos ser bem subjetiva em cada caso e em cada indivíduo...se você, leitor, teve o mesmo questionamento, acabou de ganhar milhares de pontos comigo, você está entendendo].

Mas enfim, o que afinal nos prende a essas situações/relações? Eu digo isso por que elas têm a mania irritante de se repetir, de 'nos perseguir'. Eu coloco aspas na expressão porque eu espero que seja razoavelmente evidente o caráter absurdo da idéia de serem esses modelos/padrões de relação os perseguidores e nós, os perseguidos. Somos nós quem buscamos esses modelos, não o contrário. Está em nós [nesse ponto, se você, leitor, não frequenta o blog, eu recomendo ler o texto "O verdadeiro Dragão", postado há algum tempo aqui mesmo. Nele eu exploro mais esse conceito de sermos responsáveis pelas coisas que nos cercam] o impulso, consciente ou não, de manter o vício. O evento por si é desprovido de intencionalidade. Essa é uma característica do indivíduo, que pensa e realiza ações.

E é esse ponto que me intriga. Ao criar essa noção ilusória de perseguição, de passividade, como se as situações e modelos de relação tivessem vida própria e nos escolhessem - nós, azarados por termos sido por ela escolhidos com tanta frequência - nós acabamos por nos acomodar na condição de vítimas. Nessa posição, não conseguimos fazer nada, ficamos paralizados, nos tornamos reféns, pobres coitados. Ficamos a mercê de uma condição danosa, sem conseguir encontrar meios de nos emanciparmos dela. Encontrar tais meios carece de uma mudança profunda na nossa postura diante das situações e das relações. É preciso sairmos da condição de vítima, abandoramos esse estandarte de auto-piedade que utilizamos como escudo para esconder nossa preguiça, pois deixar de ser vítima implica em tomarmos uma postura mais ativa diante da vida, 'tomarmos as rédias da situação', conforme o dito popular. E pilotar é bom, mas dá trabalho, gasta energia e requer disposição. Disposição essa que muitas vezes nos falta quando imergimos nas profundezas dos nossos vícios de relação. Nos encontramos tão presos neles - e nos alimentando daquilo que nos dá uma certa noção, mesmo que ilusória, de prazer, como é típico de qualquer vício - que temos a impressão de não nos restar forças para lutar contra aquilo que parece ser uma siuação em que uma parte de nós luta contra: o restante de nós mesmos [o que sustenta e busca o vício], a pessoa envolvida na relação [a representação aparente do vício] e o modelo de relação em si [a manifestação real do vício]. A noção de desvantagem frente a esse confronto abala fortemente nossas expectativas de melhora, nossa disposição. É preciso ponderar esse elementos de confronto. Enquanto a parte que luta contra se vê pequena e em desvantagem de número, estabelece-se a condição de vítima, 'pobre de mim, tão pequeno'. Perceber a condição de potência intríseca a ela, que tenta se rebelar contra as amarras, é o ponto de partida para a mudança de postura. É aquela sensação de revolta que motiva a luta pela liberdade, pela emancipação. O desejo de autonomia é muito poderoso no indivíduo quando se manifesta.

O.K. passado o parágrafo auto-ajuda, a dúvida ainda paira...por quê? Por que é tão difícil e por que vemos tanto a situação danosa como algo vantajoso? O que é esse ganho, essa ilusão na qual migalhas ganham proporções tão grandes a ponto de parecer compensar as injúrias e as agressões a qual nos submetemos para mantê-las[as migahas]? Por que sustentamos tanto essa destruição do nosso amor próprio? Por que o auto-boicote? Por que tanto apego a algo que nos impede de voar? É o medo de voar sozinho? Talvez...talvez seja a sensação daquele sonho em que estamos voando alto acima de um grande descampado e, ao percebermos nossa situação, caímos. Pode ser o medo de alçar o caminho independente e não encontrar um igual, não encontrar companhia, alguém pra copartilhar as experiências. Talvez uma das coisas que nos prenda seja essencialmente essa carêmncia, essa necessidade de compartilamento, de se compartilhar, de ter uma testemunha fiel, de ser compreendido, acolhido. Vendemos nossa alma pelo medo da solidão.

Falta discernimento. Falta tempo. Falta viver. É precio mergulhar. Alçar vôo sobre o descampado e subir alto, sem medo de perdermos nossos poderes entre as nuvens e sermos arremessados de volta ao chão.

É preciso audácia.

É preciso coragem.

4 comentários:

  1. caraaaaaaaaaaaaaaaalho meu, me vi! hahahha

    "O que é esse ganho, essa ilusão na qual migalhas ganham proporções tão grandes a ponto de parecer compensar as injúrias e as agressões a qual nos submetemos para mantê-las[as migahas]?"

    extremamente foda

    clapclapclap

    beijoos

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Olá Cauí, como vai você ?

    Ao ler seu tópico me veio a cabeça Hegel. Hegel é um filósofo alemão que acreditava no "espírito da história". Esse "espírito" talvez seja o responsável não só pela história das coisas como Hegel coloca, mas também como forma de percepções dos nossos relacionamentos (lembrando que aí o espírito não se coloca como cunho religioso).

    Fico pensando que nossa condição humana não nos ajuda em nada em relação aos nossos relacionamentos, o maior exemplo disso é que lembrança de felicidade não é felicidade mas lembrança de dor ainda é dor...

    Abraço do Eliézer

    (cara.. acredite, eu escrevi duas laudas do seu tópico no word mas como achei que ficaria muita coisa a explicar me poupei...rsrs)

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  4. Já a um tempo não acompanhava seus textos, mas foi interessante ver a progressão temática de dúvidas e uma semi-resposta delas ao fim (li de cima para baixo). Talvez o tamanho apego às coisas, e não só as coisas materiais como vc msm citou, esteja relacionada ao próprio jeito egocêntrico de nos construirmos, mesmo que este egocêntrismo seja inato e imperceptível, meio que instintivo eu diria. Não aceitamos muito bem rejeição. Perder algo ou simplesmente deixá-lo partir é extremamente difícil porque seria como abrir mão de uma batalha já conhecida a muito, de algo a que temos um certo apreço e admitir que mais uma vez perdemos. Acredito sim que nos colocamos no lugar da dor do apego e aqui cito o texto sobre o destino, o algoz da tragédia que vem com o alento da esperança e a impotência do homem de mudar seu futuro, mesmo sem querer acreditamos no destino, acreditamos que algumas situações são repetentes porque devemos passar por elas e meio que sem raciocinar nos colocamos na mesma situação, pois a idéia de destino se encontra aqui, e se encontra como redenção, como a oportunidade de domar ou dominar o indomável. Nos colocamos sempre na mesma situação ou à procura do mesmo alvo, porque temos no inconsciente uma situação semelhante a anterior, frustrante e cujo objetivo não foi atingido, então nesta outra oportunidade pretendemos alcançar a vitória e quando nos deparamos com os mesmos obstáculos sentimos dor, incômodo, angústia, pois mais uma vez é sinal de que talvez este obstáculo seja intrasponível e que seremos derrotados de novo, mas o jogo da luta e a chance, mesmo que remota, de vitória nos faz ficar alí e tentarmos mais um pouco. Torno ao primeiro texto sobre o destino, para sair destas situações a que ns colocamos, temos primeiro que admitirmos que não somos capazes de realizar tal tarefa, nos "desapegar" de fato e isto nos leva a perder a esperança de que é possível e como vc msm postou com outras palavras, isso pode nos deixar sem chão. No fundo, no fundo somos inertes, tendenciosos ao conservacionismo, a imutabilidade quando se trata de mudar nossos concceitos de vida, nossos pilares, nosso mais profundo eu. Escrevo nos, porque me incluo nessa também, um texto impessoal não caberia aqui. Divaguei demais já. Bjo Severino!!!

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